A sessão concitou o interesse de uma significativa plateia que escutou atentamente as intervenções de Helena Cordeiro, activista católica, membro da Liga Operária Católica e da Assembleia Municipal de Sesimbra; Edgar Silva, ex-padre e professor universitário, deputado do PCP na Assembleia Legislativa da Madeira e membro do Comité Central daquele partido; Horácio Noronha, ex-pároco na Freguesia da Quinta do Conde e actual pároco da paróquia do Pragal (Almada) e Carlos Gonçalves membro da Comissão Política do Comité Central do PCP.
Apesar de estar igualmente anunciada a participação da professora, activista católica e membro da Comissão Executiva da CGTP, Deolinda Machado, razões de saúde impossibilitaram a sua presença física, situação que não impediu, contudo, a leitura de um texto concebido para a referida sessão, no qual salienta que os “valores do evangelho são compatíveis com os valores sindicais” posto que “as convicções religiosas não alteram as condições de classe”, pois, “tal como há operários católicos, também há capitalistas católicos”.
Apresentando uma exposição na qual abordou a reciprocidade entre cristianismo e marxismo, e o materialismo e o cristianismo, Edgar Silva, sustentou que “um e outro não se excluem nem permitem mascarar a natureza do poder”, argumentando ainda que “o marxismo permite ao cristianismo impedir a alienação e de se fechar na sua suficiência, de modo a que a fé não seja o ópio mas o fermento transformador da história”.
De acordo ainda com o ex-sacerdote madeirense, “a fé é o espaço da procura, da fractura e do dever sobre o que ainda não há, para se poder agir perante as injustiças sociais ou a miséria”, defendendo, assim, que “daqui não resulta qualquer inferioridade do crente perante o ateu,” mas antes, um conjunto de “aspirações comuns entre comunistas e cristãos”, expressando a sua convicção de que “não há outra via para a transformação da vida”, confessando-se “comunista por ser católico”, garantiu igualmente que “ devo isso à Igreja e à trajectória que ela me proporcionou,” rematou.
Por seu turno, o padre Horácio Noronha, adiantou que a sua intervenção neste evento assume o carácter de uma retribuição à participação dos comunistas, designadamente de autarcas almadenses em inúmeras acções da Igreja Católica naquele concelho, ao mesmo tempo que destacou tratar-se de uma iniciativa que visando abordar o pensamento de Álvaro Cunhal sobre esta temática, nos leva a concluir haver “muitas palavras comuns no léxico de católicos e comunistas, porque radicam em aspirações que calam fundo nuns e noutros ”, referindo entre elas, solidariedade, justiça, direitos humanos, fraternidade e dignidade humana.
Para o pároco do Pragal, “a Igreja não se identifica com nenhum partido ou sindicato e não pretende substituir nenhuma ideologia, mas não se inibe de lutar ao lado das pessoas pela dignificação do ser humano, pela melhoria das suas condições de vida e pela defesa das classes mais desfavorecidas. Não basta remediar as consequências que a usura de um pequeno grupo provoca na multidão, é necessário agir nas causas”, argumentou.
Segundo Carlos Gonçalves, a realização deste debate intenta abrir caminhos a novas sínteses sobre a forma de alterar a dramática situação que o país hoje vive, razão pela qual considerou “ser o momento certo para conferir o devido relevo ao trabalho teórico e criativo de Álvaro Cunhal acerca deste e outros temas e ao relevante papel que assumiu na defesa dos trabalhadores.”
Neste quadro, sustentou, “a unidade entre comunistas e católicos na luta contra as injustiças sociais e na defesa da democracia é uma tarefa a que nenhum de nós pode passar ao lado”, justificando a sua opinião com algumas passagens do pensamento do carismático líder partidário, sobre as questões religiosas e, em particular as que se reportam aos católicos.
Destacando também diversos aspectos negativos da política que tem sido levada a cabo em Portugal nos últimos anos e a consequente degradação das condições de vida da maioria da população, o dirigente do PCP, reiterou a necessidade de renegociação da dívida e a rotura com a política de direita protagonizada pelo actual Governo.”
Asseverando que na óptica do seu partido “não há uma questão religiosa em Portugal. E do que depender do PCP, nunca haverá, visto que nada move os comunistas contra a igreja e não acompanhamos as posições maçónicas, nem anarquistas nesta matéria”, Carlos Gonçalves, enfatizou ainda ser “preciso, imperioso e urgente estar com os católicos na luta contra o pacto de agressão.”
No decurso do evento vários elementos da assistência usaram igualmente da palavra para dar nota de experiências pessoais ou formular perguntas aos oradores, entre eles Vítor Antunes, Presidente da Junta de Freguesia da Quinta do Conde, que agradeceu “as muitas e boas lições que os oradores aqui nos deixaram, as quais nos alimentam a convicção de que é possível a solidariedade e não a caridadezinha, assim como a criação de condições que possibilitem a dignificação dos trabalhadores, sejam eles católicos ou comunistas”.
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